domingo, 17 de janeiro de 2010

Manoel de Barros é um poeta para quem as margens não existem. Margens são próprias do mundo sem delicadezas, sem respeito humano, sem paz. O mundo da poesia não se alheia deste outro, mas é capaz de com ele concorrer e de vencê-lo pela liberdade e ausência de limites. A poesia humaniza o mundo; o poema trata de construí-lo pela palavra. É próprio da poesia provocar controvérsias, desafiar o leitor na sua interpretação. Cada um lê como quer. Ou como pode. Ou como acha que pode. Se atentarmos bem para o que diz seus poemas, Manoel de Barros se dá muito bem a uma leitura linear que ignore sua porosidade, que não perceba a profundidade de suas apropriações, citações, que não dê conta de seus recursos retóricos. Mas também pode se enriquecer com todas estas considerações. Tudo o que é próprio da poesia, desde sempre, está presente em seus poemas – ritmo, sonoridade, figuras de linguagem. Basta ler, ouvir, pensar, sentir. Se o leitor domina a linguagem poética, vai chegar a um sentido. Se não domina, chegará a outro. Não importa. A poesia é o que conta. É voar fora da asa. É ouvir o vento. É tornar-se coisa, rã ou árvore. Ou, simplesmente, palavras.


Maria Adélia Menegazzo - UFMS


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